Dois meses para as eleições: o que o investidor deve ou não fazer agora 

O primeiro turno das eleições gerais está marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro. Com dois meses pela frente, o mercado financeiro entra no período de maior sensibilidade do ciclo eleitoral, e o investidor que não tiver clareza sobre o que fazer corre o risco de tomar as piores decisões justamente no momento em que mais precisaria de equilíbrio.

Este trata de entender o comportamento histórico dos ativos nesse período e de identificar o que realmente faz sentido, e o que não faz, para quem tem uma estratégia de longo prazo.

O que os dados dizem sobre esse momento

Em anos eleitorais, a volatilidade média mensal do Ibovespa sobe cerca de 10,6% em relação a períodos sem eleição, com maio e junho sendo historicamente os meses de maior pressão, segundo levantamento do Santander publicado pelo Infomoney. Esse padrão não é uma regra absoluta: em 3 dos 5 últimos ciclos eleitorais, o índice apresentou desempenho pior e maior volatilidade, mas o fator decisivo nunca foi a eleição em si, e sim a natureza da incerteza que a acompanhou. Em 2026, o movimento segue o script conhecido, ações brasileiras acumulam performance 24% inferior à dos mercados emergentes desde abril, e o histórico sugere um rali de aproximadamente 10% no mês da eleição, independentemente do resultado.

A diferença existe, mas não configura um colapso de mercado. O estudo aponta ainda que essa oscilação se concentra sobretudo no segundo semestre, quando a campanha ganha força.

Em média, o real se desvalorizou cerca de 16% frente ao dólar entre maio e outubro dos seis últimos ciclos eleitorais, segundo levantamento histórico do Bradesco com base em dados do Banco Central. O câmbio é historicamente o termômetro mais sensível ao risco eleitoral, uma notícia política que mexe com as expectativas fiscais pode mover o dólar no mesmo dia.

O segundo semestre de 2026 começou exigindo uma recalibragem das carteiras. Se o mercado entrou no ano projetando queda da Selic e inflação mais comportada, os últimos meses trouxeram uma sequência de acontecimentos que mudou significativamente esse cenário: o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, a pressão sobre preços do petróleo e a perspectiva de juros elevados por mais tempo alteraram as expectativas para inflação, renda fixa e bolsa.

O que NÃO fazer nos próximos dois meses

Antes de falar sobre ações concretas, vale enumerar os erros mais comuns que investidores cometem em períodos eleitorais, e que frequentemente custam mais do que a própria volatilidade que tentam evitar.

Vender tudo e esperar o resultado. É a reação mais instintiva e uma das mais prejudiciais. Quem sai do mercado antes de um evento de risco raramente volta na hora certa. O custo de ficar fora nos dias de recuperação costuma superar o benefício de ter evitado a queda.

Concentrar patrimônio em dólar como proteção total. Exposição cambial faz parte de uma estratégia equilibrada. Mas colocar tudo em dólar apostando numa desvalorização eleitoral do real é especulação, não proteção. O câmbio pode se mover nos dois sentidos.

Tomar decisões baseadas em pesquisas eleitorais. Pesquisas medem intenção de voto num momento específico, não o resultado da eleição nem o comportamento do mercado depois dela. Carteiras construídas em torno de cenários políticos específicos tendem a ser ajustadas às pressas quando os eventos não se desenvolvem como esperado.

Aumentar exposição a risco em busca de oportunismo. O raciocínio de “se cair, compro mais” frequentemente ignora que a tolerância real a perdas é menor do que a tolerância imaginada. Volatilidade de tela é diferente de ver o patrimônio recuar de verdade.

O que VALE fazer agora

Mais importante do que prever qual será o próximo movimento do mercado é construir uma carteira capaz de atravessar diferentes cenários. Esse princípio, válido em qualquer momento, tem aplicação direta nas semanas que antecedem outubro.

Revisar a alocação da carteira com foco no prazo de cada objetivo. Quem tem horizonte de cinco anos ou mais tem uma relação completamente diferente com a volatilidade eleitoral do que quem vai precisar do dinheiro em doze meses. O primeiro pode manter ou até aumentar posições de forma seletiva. O segundo precisa garantir liquidez adequada independentemente do resultado nas urnas.

Avaliar a exposição a títulos longos de renda fixa. Em períodos eleitorais, a curva de juros de longo prazo costuma apresentar maior volatilidade, o que pode gerar oscilações temporárias nos títulos antes do vencimento. Quem carrega Tesouro IPCA+ com vencimentos muito longos pode enfrentar marcação a mercado negativa no curto prazo, mesmo que o título seja excelente para o longo prazo.

Manter aportes regulares. Uma das descobertas mais consistentes da literatura de finanças comportamentais é que investidores que mantêm aportes periódicos em momentos de volatilidade, em vez de pausar e esperar, tendem a construir patrimônio de forma mais eficiente no longo prazo. A queda nos preços dos ativos é, para quem está acumulando, uma oportunidade, não uma ameaça.

O que o resultado das eleições não decide

Existe uma pergunta que merece resposta direta: o resultado eleitoral vai definir o destino dos meus investimentos?

A resposta histórica é não, pelo menos não da forma que o noticiário sugere. O Brasil passou por seis eleições presidenciais desde 2002, com resultados e espectros políticos muito distintos entre si. Em todos os casos, investidores com estratégia clara e horizonte adequado encontraram caminhos para preservar e crescer patrimônio. O que variou foi o ruído durante o processo. O que permaneceu foi a lógica de longo prazo.

Na Tórus, nossa abordagem para o período eleitoral é a mesma que para qualquer outro momento de incerteza: entender o perfil de cada cliente, revisar o prazo de cada objetivo e garantir que a carteira está construída para atravessar qualquer cenário, não apenas o mais provável.