O dólar encerrou o primeiro semestre de 2026 próximo de R$ 5,15, depois de acumular queda de quase 11% em relação aos picos de 2025. Para muitos empresários, esse movimento pareceu uma boa notícia. Para quem entende de gestão financeira corporativa, foi um alerta.
O mercado de câmbio brasileiro deve enfrentar um cenário de forte volatilidade no segundo semestre de 2026, com o dólar mantendo-se sensível a choques externos e internos, sem uma tendência linear de valorização ou desvalorização. E volatilidade, para empresas com exposição cambial, não é neutra. É risco de margem.
O dólar como variável silenciosa do resultado
Existe uma categoria de empresas para as quais o câmbio é uma variável visível e monitorada de perto: exportadoras, importadoras, empresas com dívida em moeda estrangeira. Para essas, a oscilação do dólar aparece diretamente no DRE e no fluxo de caixa.
Mas existe uma categoria muito maior, e frequentemente desatenta, de empresas que têm exposição cambial indireta. Empresas que compram insumos cujo preço é referenciado em dólar, mesmo que a nota fiscal chegue em reais. Empresas cujos fornecedores repassam variações cambiais com defasagem. Empresas de tecnologia que pagam licenças de software em dólar. Empresas do agronegócio que vendem commodities precificadas internacionalmente.
Para todas elas, o câmbio impacta o resultado, mesmo que a operação pareça inteiramente doméstica. E na prática, empresas expostas ao dólar convivem com ciclos mais curtos de valorização e depreciação, o que dificulta decisões táticas e exige mais disciplina na proteção cambial.
Por que o segundo semestre merece atenção redobrada
O calendário eleitoral brasileiro é o principal gatilho de incerteza para o câmbio em 2026, com picos de volatilidade previstos para o terceiro trimestre. Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, agosto e setembro concentram o período de maior sensibilidade política do mercado.
O Morgan Stanley projeta um cenário mais volátil ao longo do ano eleitoral, estimando que a moeda americana atinja R$ 5,60 no terceiro trimestre. Outros analistas são mais conservadores, mas o consenso converge em um ponto: anos eleitorais no Brasil trazem uma curva de volatilidade clara, com o terceiro trimestre sendo o momento de maior estresse, refletindo a incerteza dos debates e pesquisas.
Para o empresário, isso significa que as próximas semanas representam uma janela estratégica. Quem estrutura proteção agora, quando o câmbio ainda está relativamente estável, paga menos por essa proteção do que quem espera o estresse se materializar.
O erro mais comum: reagir em vez de planejar
A maioria das empresas brasileiras não tem uma política cambial estruturada. Reage ao câmbio quando ele já se moveu, correndo para comprar dólar quando já subiu, ou adiando proteção quando está baixo porque “parece que vai continuar assim”.
Esse comportamento tem um custo mensurável. Empresas que reagem ao câmbio em vez de planejar sua exposição frequentemente compram proteção cara, tomam decisões de precificação fora do momento certo e acumulam volatilidade no resultado que poderia ter sido evitada.
Diante de tanta incerteza, “esperar para ver” não é uma estratégia de negócios. O planejamento cambial deve ser tratado como um seguro. Ninguém espera o carro bater para contratar o seguro. O mesmo raciocínio se aplica ao câmbio.
Os instrumentos disponíveis para proteção
Proteção cambial não é exclusividade de grandes corporações. Existe um conjunto de instrumentos acessíveis para empresas de diferentes portes que permitem reduzir a exposição ao risco cambial de forma estruturada.
O contrato a termo de câmbio é o instrumento mais simples e direto. A empresa trava uma taxa de câmbio para uma data futura, eliminando a incerteza sobre o custo de uma compra ou o valor de uma receita em moeda estrangeira. É especialmente útil para importadores com pagamentos programados ou exportadores com receita futura em dólar.
O ACC, Adiantamento sobre Contrato de Câmbio, é uma linha de crédito específica para exportadores que permite antecipar receitas em reais antes do embarque da mercadoria, utilizando o contrato de exportação como garantia. Além de proteger contra a variação cambial, oferece capital de giro com custo geralmente inferior ao de linhas convencionais.
Para empresas sem operações de comércio exterior mas com exposição indireta, a estratégia mais prática frequentemente envolve diversificação de fornecedores, ajuste de política de precificação e monitoramento mais ativo das margens em diferentes cenários de câmbio.
Crédito em moeda estrangeira como ferramenta de gestão
Além da proteção cambial operacional, existe uma dimensão de câmbio frequentemente negligenciada: o crédito em moeda estrangeira como instrumento estratégico de gestão financeira corporativa.
Para empresas exportadoras ou com receita parcialmente dolarizada, captar crédito em dólar cria um hedge natural: a dívida em moeda estrangeira é compensada pela receita em moeda estrangeira, reduzindo a exposição líquida ao câmbio. Quando bem estruturada, essa operação pode resultar em custo de capital efetivo inferior ao de linhas em reais, especialmente no cenário atual de Selic elevada.
Na Tórus Corporate, contamos com uma área exclusiva de câmbio com profissionais especializados que acompanham o mercado em tempo real. Estruturamos operações de proteção cambial, crédito PJ em moeda estrangeira e planejamento financeiro corporativo integrado para empresas de diferentes perfis e setores. Porque câmbio não é um problema que se resolve uma vez, é uma variável que precisa ser gerida de forma contínua, com estratégia e informação de qualidade.
O que fazer agora
Agosto é um mês de decisões para quem tem exposição cambial. O terceiro trimestre, historicamente o mais volátil em anos eleitorais, começa agora. E a diferença entre quem chega a outubro com margens protegidas e quem chega com margens corroídas frequentemente se define nas semanas anteriores ao pico de volatilidade, não durante ele.
Mapear a exposição cambial real da empresa. Identificar quais receitas, custos e compromissos têm referência em moeda estrangeira, direta ou indireta. Avaliar quais instrumentos de proteção fazem sentido para o perfil e o porte do negócio. E agir antes que o dólar decida por você.
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